Seja como for ninguém prestava atenção nele. A família estava completamente absorvida pelo violino; os inquilinos, ao contrário, que a princípio haviam se colocado, as mãos nos bolsos das calças, perto demais da irmã, atrás da estante da partitura, de tal modo que todos eles poderiam ver as notas, o que certamente devia perturbar a irmã, logo retrocederam até a janela, as cabeças baixas, conversando a meia voz, e ali permaneceram, ansiosamente observados pelo pai. Realmente isso agora tinha aparência mais que nítida de que estavam decepcionados na sua expectativa de ouvir uma música de violino bonita ou capaz de entreter- de que estavam saturados de toda a apresentação e só por polidez ainda se deixavam perturbar no seu sossego. Especialmente o modo como sopravam para o alto a fumaça dos seus charutos pelo nariz e pela boca permitia deduzir o grande nervosismo deles. E no entanto a irmã tocava com tanta beleza! O rosto dela estava inclinado para o lado, seus olhares seguiam perscrutadores e tristes as linhas de partitura. Gregor rastejou mais um trecho à frente, mantendo o corpo rente ao chão, para se possível captar os seus olhos. Era ele um animal, já que a música o comovia tanto?Era como se lhe abrisse o caminho para o alimento almejado e desconhecido (...) "
kafka,Franz. A Metamorfose. Tradução e posfácioModesto Carone - São Pulo: Companhia das Letras, 1997.
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