terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A Metamorfose

" (...) A irmã começou a tocar; o pai e a mãe, cada um do seu lado, acompanharam atentamente os movimentos das suas mãos. Atraído pela música, Gregor tinha ousado avançar um pouco e já estava com a cabeça dentro da sala de estar. Dificilmente o surpreendia o fato de que nos últimos tempos levava os outros tão pouco em conta; essa consideração tinha sido, antes, o seu orgulho. E no entanto, justamente agora ele deveria ter mais motivo para se esconder, pois por causa do pó que se depositava em toda parte no seu quarto, e que ao menor movimento voava em volta, ele também estava todo coberto de poeira; sobre as costas e pelos lados arrastava consigo fios, cabelos, restos de comida; sua indiferença diante de tudo era grande demais para que, como antes, tivesse ficado de costas e se esfregado no tapete várias vezes durante o dia. E a despeito desse estado não teve pejo de se adiantar um pouco sobre o assoalho imaculado da sala de estar.
Seja como for ninguém prestava atenção nele. A família estava completamente absorvida pelo violino; os inquilinos, ao contrário, que a princípio haviam se colocado, as mãos nos bolsos das calças, perto demais da irmã, atrás da estante da partitura, de tal modo que todos eles poderiam ver as notas, o que certamente devia perturbar a irmã, logo retrocederam até a janela, as cabeças baixas, conversando a meia voz, e ali permaneceram, ansiosamente observados pelo pai. Realmente isso agora tinha aparência mais que nítida de que estavam decepcionados na sua expectativa de ouvir uma música de violino bonita ou capaz de entreter- de que estavam saturados de toda a apresentação e só por polidez ainda se deixavam perturbar no seu sossego. Especialmente o modo como sopravam para o alto a fumaça dos seus charutos pelo nariz e pela boca permitia deduzir o grande nervosismo deles. E no entanto a irmã tocava com tanta beleza! O rosto dela estava inclinado para o lado, seus olhares seguiam perscrutadores e tristes as linhas de partitura. Gregor rastejou mais um trecho à frente, mantendo o corpo rente ao chão, para se possível captar os seus olhos. Era ele um animal, já que a música o comovia tanto?Era como se lhe abrisse o caminho para o alimento almejado e desconhecido (...) "


kafka,Franz. A Metamorfose. Tradução e posfácioModesto Carone - São Pulo: Companhia das Letras, 1997.

Nenhum comentário:

Postar um comentário